quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO XIV

Já publicado:
Solstício I
Solstício II
Solstício III
Solstício IV
Solstício V
Solstício VI
Solstício VII
Solstício VIII
Solstício IX
Solstício X
Solstício XI
Solstício XII
Solstício XIII



A meio do caminho, Eric pousou o menino no chão. Continuaram devagar, de mãos dadas, em direcção ao castelo. Punha-se ainda mais frio. O sol tinha brilhado, de madrugada, mas grossas nuvens o tinham encoberto e agora o céu era apenas um manto cinzento. O tempo tinha mudado, e Eric pensou nessa ironia. Tanto que aquela gente se tinha esforçado por dar as boas vindas ao Sol, e já o ingrato lhes falhava.
– Vamos ao castelo da prima buscar as nossas coisas, e vamos para casa. – explicou ao seu filho. – Sim, estamos sozinhos, mas podia ser pior. Um dia perceberás que já é uma sorte termo-nos um ao outro. Há quem não tenha ninguém. – O resto já não disse em voz alta. É claro que aquela gente não vai autorizar este casamento. Devem estar todos a amaldiçoar-me, naquele maldito Conselho, a envenená-la contra mim! Da maneira que a Hildegaard os ouve, é o fim. É mesmo o fim. Eric respirou fundo, num suspiro amargo e pesado. Agora é que ela não vai...
O menino parou, e puxou-lhe pela mão. Na colina que ladeava a vereda verdejante, uma dúzia de crianças brincava. Crianças de todas as idades, dos pequeninos aos crescidos que tomavam conta deles. Pequeninos da idade do seu filho.
Eric sabia porque é que este olhava. Gostava de brincar com outras crianças, mais do que gostava de brinquedos. Sempre que podia, Eric tentava arranjar-lhe amiguinhos. Da maneira que constantemente viajavam, nem sempre os havia disponíveis! Mas ali estavam, as crianças das Terras Verdes, a quem o Conselho nada interessava. Hildegaard tinha-lhe dito que já não havia muitas, mas certamente não podiam ser só aquelas!... Corriam e brincavam, nos seus jogos, e o menino olhava, cheio de vontade de brincar também, e Eric teve uma ideia:
– Já comeram? – perguntou-lhes. – A minha prima tem uma mesa cheia de guloseimas e agora que a festa acabou precisamos de ajuda para comer tudo. Alguém quer guloseimas?
As crianças entreolharam-se, indecisas, mas apenas um instante. Tão inocentes, aqueles meninos e meninas das Terras Verdes, não sabiam o perigo de um estranho. Mal sabiam o que era um estranho, ali tão isoladas! Felizmente, o estranho que as convidava era benévolo, porque imediatamente agradeceram e correram atrás dele até ao castelo.
Eric abriu-lhes a porta e apontou-lhes o salão. Todos entraram, aos gritinhos e risos, e a mesa foi prontamente atacada. O pequeno Eric, entre eles, ria também e partilhava o seu arco com outro menino igualmente curioso. Até já experimentavam usá-lo!
Não devia estar ninguém no castelo, até os velhos criados se encontrariam no maldito Conselho, mas Eric não se preocupou. Algumas das crianças eram crescidas, dos seus dez, onze, doze anos, e podiam olhar pelos mais novos. Com um sorriso, deixou-os às suas brincadeiras e começou a subir a escada de pedra até ao andar superior.
A meio das escadas, o sorriso desfez-se. O coração afundou-se-lhe, afogado em desânimo, e uma lágrima traiu-o. A vida recomeçava, nesse dia, e não era bom o que recomeçava. Esperava-o um casamento, muito em breve, o casamento com uma perfeita estranha, um casamento de tão mau agouro como o tinha sido o dos seus pais! Como tinha tentado evitar esse destino para si! Hildegaard, surgida na sua vida quando já não a esperava, tinha sido a resposta a todos os seus anseios!... Ou assim o sonhava, mas agora compreendia. Hildegaard amava a sua liberdade, e jamais, jamais!, lhe pediria que abdicasse da sua liberdade! Invejava-a. Porque Eric tinha feito uma escolha, há muitos anos, e não era livre.
Por um instante, apenas um instante, passou-lhe pela cabeça pegar na sua trouxa, no seu cavalo e no seu filho e seguir para norte. Para lá das Terras Verdes, para lá do reino, para lá do império, e nunca mais aparecer... Mas era loucura. Demasiado tarde para desaparecer. Tinha havido um momento, sim, um momento para desaparecer, mas tinha feito uma escolha e agora era tarde. Agora era o momento de desistir e Eric deixou que outra lágrima lhe cruzasse o rosto resignado. Tinha feito tudo ao seu alcance, mas não tinha sido suficiente, e aquele sonho acabava ali.
Quando Hildegaard chegou, não muito depois, já a esperava no salão, em trajes de viagem e bagagem arrumada, para se despedir.
Hildegaard olhou para ele, e franziu o sobrolho, e depois contemplou o que tinha acontecido ali, a sua casa repleta de crianças barulhentas e irrequietas, a comerem tudo o que havia na mesa, e deixou cair o queixo. 
– Primo, malvado! – ralhou-lhe, quase a sério. – Os pais deles andam loucos à procura dos filhos, toda a gente está ralada porque desapareceram, e trouxeste-os para aqui?!
– Não sabia que era preciso permissão! – Eric respondeu, confuso. – Estavam sozinhos. Só os convidei para comerem os restos... – e mais baixinho, admitiu à sua prima: – E porque o meu filho nunca tem com quem brincar, achei que podia brincar com eles...
– Nós brincamos com ele! – prometeu uma menina de longos cabelos castanhos, que disfarçadamente estava a ouvir tudo.
Hildegaard sorriu. Não um sorriso de alívio, nem um sorriso por achar graça, mas outra coisa.
– A neta da Melissen. – apresentou-a ao seu primo.
Eric olhou melhor a menina esperta e alegre, e sorriu também. Sempre teria boas notícias, deveras, para o capitão Lars!
– Então é melhor mandá-los embora, antes que os pais deles venham pela minha pele! – gracejou, mas agora era Hildegaard quem seriamente o fitava, olhos nos olhos, a preocupação com as crianças completamente esquecida já que não havia motivo para se preocupar.
– Ias-te embora?
– Sim, eu...
– Ainda bem que cheguei a tempo! – Hildegaard exclamou, misteriosa, mas o nervosismo apertou-lhe as mãos uma na outra. Um nervosismo como Eric nunca lhe vira. – Espero ter chegado a tempo. O Conselho acabou. Tivemos uma votação. Continuo a ser a soberana das Terras Verdes. O meu povo aceita a minha decisão. – e os olhos verdes brilharam-lhe, o brilho de lágrimas de emoção e alegria. – A minha decisão é sim! Se ainda venho a tempo!
Eric endireitou as costas, transtornado, e semicerrou os olhos a olhar os dela como se não conseguisse acreditar neles.
– E a tua liberdade?...
– Já tive muita liberdade. – explicou Hildegaard, com um leve aceno. – Tanta liberdade que se tornou solidão, e a solidão tornou-se agradável. Até tu chegares. Caso com o homem, não com o imperador. Caso contigo, porque te amo. Se é que ainda não desististe...
– Desisti. – Eric confessou, o coração quase a saltar-lhe do peito, e aproximou-se para lhe tomar o rosto entre as mãos. – Desisti, e estava infelicíssimo. Mas já não estou!
Esquecido de tudo, Eric quase a beijava, quando Hildegaard interpôs a mão entre eles, apontando com a cabeça para as crianças. Não estavam sozinhos! Haveria tempo para tudo isso mais tarde!
Agora Eric já não se importava, mas feliz apertou-a contra o peito e Hildegaard não se afastou daquele abraço. Tentavam não chorar, ambos. No salão, as crianças já não lhes prestavam nenhuma atenção, entretidas a correr em roda da mesa, mas Eric encontrou os olhos do seu filho, atentos, vigilantes, a espreitar o que se passava. Como se adivinhasse, o menino sorriu. Eric já sabia que aprovaria. Há muito tempo que o ouvia dizer-lhe, em pensamentos, se acreditasse nessas coisas, que queria a prima com eles. Eric já nem perdia tempo a questionar o que ouvia do seu filho. Sim, teriam a prima com eles. Sim, era oficial. Sim, tinham-na conquistado!
E a vida começa de novo! Eric recordou, e sorriu.







~§~




Nota ao leitor

Os acontecimentos em Solstício têm lugar entre dois romances mais extensos, ainda não publicados.











SOLSTÍCIO

por d.d. maio

Dezembro 2016

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO XIII

Já publicado:
Solstício I
Solstício II
Solstício III
Solstício IV
Solstício V
Solstício VI
Solstício VII
Solstício VIII
Solstício IX
Solstício X
Solstício XI
Solstício XII



Desta vez os archotes iam acesos quando pouco mais tarde subiam a colina. Eric continuava algo espantado, ao seguir aquela gente em fila para outro sítio que não a clareira entre as árvores. Mas ao chegar ao topo da vereda, compreendeu. A leste da colina, a grande montanha erguia-se, a majestosa barreira de onde o sol brilharia primeiro.
No chão pedregoso ardia uma única fogueira, quase insignificante agora que o céu de límpido inverno já começava a ofuscá-la. Dispostos em semicírculo, os sacerdotes e sacerdotisas cantavam, virados para leste. Toda a gente esperava, alguns cantando também, o primeiro raiar da aurora.
Bem, o cerimonial era interessante, e o seu filho parecia entretido. Eric olhou para baixo, para o menino que lhe dava a mão, envolto na capa com capuz que Hildegaard lhe vestira, quase como os sacerdotes da terra. Animado e curioso, como de costume, o rapazinho observava. Não compreenderia, era demasiado pequeno para compreender, mas o nascer do sol era sempre bonito de se ver. Podia dizer-lhe, quando regressassem...
– Amigos! – a sacerdotisa da véspera ergueu a voz, voltada para a assembleia que a escutava. – A noite morre e o sol renasce! Hoje, o dia vence a noite!

Hoje, o dia vence a noite!

– Já não tarda a primavera, agora que começa o inverno! Agradecemos o inverno, que nos traz a primavera! Agradecemos as trevas, que nos trazem a luz! Eis que nasce a luz e morre a noite, e a roda do ano completa-se. Grande Mãe, agradecemos a luz!

Grande Mãe, agradecemos a luz!

– Nela esperamos, nela agradecemos, a Ela celebramos! Como a noite, morremos; como o Sol, renascemos!

Como o Sol, renascemos!

– Hoje a vida recomeça, nova e antiga, desde o princípio dos tempos, até ao fim dos tempos. Agradecemos a luz que nos guia, abrimos o coração à luz! Como o Sol renascemos, e a vida começa de novo!

E a vida começa de novo!

Atrás da sacerdotisa, o céu clareava. Com a madrugada, a neblina chegava por cima da montanha, raiada de azul e cor-de-rosa. O chilrear dos pássaros regressava, a floresta desperta enchia-se de som e cor.

– Bendita sejas, Grande Mãe! Abençoa-nos, Grande Mãe!

Abençoa-nos, Grande Mãe!

E como se soubesse o instante, a sacerdotisa voltou-se para o Sol, e o Sol raiou para todos. Cânticos alegres soavam agora, e alguns rapazes e raparigas deram as mãos e dançaram em roda da fogueira.
E ali estava, o Sol! E ali estava, a manhã! Eric sorriu e apertou a mão do seu filho, mas era triste aquele sorriso. E ali estava, o fim da visita! E ali estava, o começo da vida que não desejava!
Um ancião, um homem gordo e quase careca, a quem já custava caminhar, aproximava-se de Hildegaard com um grande sorriso nos lábios.
– Tem o que pedi, Mestre Symm? – Hildegaard recebeu-o, entusiasmada.
– Claro que tenho, Menina! Exactamente o que pediu! – o homem tirou algo de dentro do casaco e Eric percebeu o que era. Um pequeno arco, uma perfeita réplica de madeira e corda, feita por um verdadeiro mestre! Só a ponta da seta o denunciava como brinquedo. – Veja, Menina, a minha mulher coseu-lhe uma almofada de pano e lã, para o rapazinho não se aleijar. Que me diz?
– Está maravilhoso, Mestre Symm! – Hildegaard exclamou, encantada, e inclinou-se para o seu pequeno primo, que de olhos brilhantes já cobiçava o presente. – E tu, que dizes? Gostas da prenda? É um arco e uma flecha, para aprenderes como a prima aprendeu!
O menino pegou no brinquedo, tão feliz e impaciente que já nem queria levantar dele os olhos.
– Diz “obrigado”. – Eric recordou-o, como nunca ninguém o tinha recordado a ele.
– Obrigado! – repetiu o rapazinho, sem saber se para o homem se para a prima. O brinquedo era demasiado novo e divertido para se preocupar com essas coisas.
Os adultos riram, e o homem ofereceu:
– Também posso fazer uma espada!
– Sim, uma espada! – Eric concordou logo, interessadíssimo. – Faz-me destes brinquedos e far-te-ei um homem rico!
– Não o faço por dinheiro, meu senhor. – revelou o ancião, todo ele sorrisos. – Faço-o pela alegria destes pequeninos! Mas diga-me quando regressa, meu senhor, e terei muitos mais para o seu filho!
No rosto de Eric, o sorriso apagou-se. Não sabia quando regressaria. Não sabia se regressaria. Oh, como desejava regressar! Mas daquele dia em diante a vida “recomeçava”, e não era bom o que “recomeçava”.
– Está tudo pronto? – Hildegaard indagou do homem, que de imediato garantiu:
– Mais pronto não podia estar. Os meus rapazes já prepararam tudo.
– Muito bem. Que se faça o Conselho.
Mestre Symm despediu-se com uma ligeira vénia e Eric esperou que este se afastasse para perguntar, confundido:
– O Conselho?! Convocaste o Conselho?
Os primeiros raios de sol já devolviam os reflexos de ouro aos cabelos da sua prima, e nunca aqueles olhos lhe tinham parecido tão claros, verdes e transparentes como gotas de orvalho.
– Sim, convoquei. – Hildegaard respondeu, com a gravidade que a ocasião exigia. – Outra das nossas tradições a que nunca assististe. Mas é justo que assistas. O Conselho diz-te respeito.
Eric tinha ouvido falar do Conselho. Uma reunião de todas as pessoas importantes das Terras Verdes, e do povo também. Uma reunião absolutamente proibida a estranhos, como ele era um estranho! O que o espantava era ser convidado! Hildegaard podia muito bem ter convocado o Conselho mais cedo, ou depois de ele partir... Afinal, para que servia o Conselho? Não estava já tudo decidido?...
De propósito, foram os últimos a chegar. Na maior praça da vila, ruas de gente esperavam-nos. Um simples estrado de madeira tinha sido erguido no chão, sem qualquer luxo ou adorno, que mais parecia um patíbulo para executar condenados. As gentes das Terras Verdes eram frugais. Talvez não o tivessem sido, nos tempos em que o Unicórnio reinava, mas certamente eram-no agora.
Hildegaard subiu os degraus do estrado, e Eric seguiu-a, como lhe tinha sido pedido. Muito pouco à vontade por segui-la, onde não lhe parecia que fosse o seu lugar. O silêncio, os semblantes carregados em toda aquela gente que o fitava, diziam-lhe o mesmo. Alta e altiva, a digna soberana das Terras Verdes voltou-se para o seu povo. Ninguém pronunciava uma palavra.
– Amigos, obrigada pela vossa presença. – Hildegaard começou, mais formal e solene do que Eric alguma vez a tinha visto. Sim, aquela era a rainha que queria ter a seu lado! A soberana que já o era! Mas não estava já tudo decidido, que tal nunca aconteceria?... – Todos sabeis o que nos traz aqui hoje. A minha mão foi pedida e o vosso conselho é necessário.
– Hildegaard, – ouviu-se a voz que Eric logo reconheceu, a voz da sacerdotisa, a celebrante dos rituais, algures de entre a multidão – perdoa-me, mas ele não devia estar aqui! Este é o Conselho das Terras Verdes, reservado apenas à gente das Terras Verdes!
– Deveras! – apoiou outro homem, junto dos sacerdotes, mas não um deles. – O imperador, com o devido respeito, não devia estar aqui!
– Não devia estar aqui! – começou um burburinho na praça, uns concordando, outros mandando calar os primeiros.
Eric, alguns passos atrás dela, com o filho sentado no braço, não gostou do aspecto que as coisas levavam. E aquela gente tinha razão, não era o seu lugar, e o melhor era ir-se embora...
– Perdoai-me vós, – Hildegaard ergueu a voz acima da deles, e o burburinho cessou – mas o meu primo tem todo o direito a estar aqui! O mesmo direito que qualquer um de nós! Ele é o filho de Elena, da casa do Unicórnio, filha das Terras Verdes! Se ele hoje é um estranho não é a ele que deveis culpar! – Hildegaard já os tinha calado a todos, mas de sobrolho franzido continuou: – O meu primo veio aqui como um amigo, para conhecer os nosso costumes, respeitando as nossas tradições. Devemos-lhe o mesmo respeito. Apesar de tudo, bem sei, apesar de tudo! Nada pode desfazer o passado, e estamos aqui para deliberar o futuro!
Novo burburinho percorreu os presentes. A presença do imperador já parecia ultrapassada, mas o motivo do Conselho só agora começava a ser discutido.
– Aconselho contra esta união! – a sacerdotisa falou outra vez, séria e indignada. Eric não gostou nada de a ouvir, mas admirou-lhe a coragem. Se todos os seus inimigos fossem assim tão honestos talvez não fossem inimigos! – O nosso lugar é aqui, nas Terras Verdes, onde não somos perseguidos, onde somos livres de ser quem somos! Hildegaard, que loucura te atormenta? Sabes que nos espera lá fora! Nem devia ser necessário o Conselho para te alertar do que tão bem conheces!
– Egoísta! – acusou uma voz, antes que Hildegaard pudesse responder. Uma voz que Eric conhecia também. Etha, do outro lado da multidão, ainda nas suas vestes sacerdotais. – Mulher egoísta! O que espera a Hildegaard “lá fora”!... E o que espera a Hildegaard cá dentro, uma vida de solidão e renúncia? É isto que desejamos à nossa soberana, cuja mão foi pedida por outro soberano? Devemos pedir-lhe que recuse, que abdique do seu coração, para nos servir? Devemos exigir-lhe que se torne uma monja, como aquelas no mundo lá fora?
– Não! A Hildegaard deve ouvir o seu coração! – respondeu uma jovem, loira e bonita, que Eric só conhecia por ser a filha do taberneiro, o único taberneiro das Terras Verdes. O taberneiro seu pai, ao lado dela, não concordava nada com a filha.
– A voz da juventude! – desdenhou este, virando-se para os outros presentes. – A voz de quem não conhece o mundo, e os horrores que lá se praticam!
– Ele tem razão! – aplaudiu uma mulher mais velha. – Devemos abrir as nossas portas ao mundo, aceitar que nos persigam na nossa terra também?
– Devemos esperar que já não haja ninguém para perseguir, quando todos nós desaparecermos de vez? – contrapôs Etha, a mais inesperada aliada.
Uma aliada com que Eric não contava, mas a discussão começava a ficar acesa, e não queria o seu filho a ouvir aquelas coisas. Fingindo que brincava com o arco, o menino permanecia sério e de olhos baixos, pouco habituado à discórdia. Eric não o queria proteger de tudo, seria um erro protegê-lo de tudo, mas por hoje já chegava. Pousou-o no chão, com a promessa segredada:
– O pai já vem!
E o imperador aproximou-se da sua prima, que silenciosa e de expressão fechada continuava a ouvir estes e aqueles, como se quisesse esperar até os ouvir a todos.
– Posso falar? – perguntou-lhe. Com um espantado encolher de ombros, Hildegaard deixou que o debate respondesse por ela, que não deviam estar na disposição de escutar um homem que na opinião deles representava o inimigo, mas Eric não se deixou intimidar. – Posso falar?! – perguntou mais alto, à assembleia. – Sei que não é o meu lugar, mas posso falar?...
Um a um, os presentes calaram-se e voltaram-se para o fitar, de olhos arregalados, incrédulos e estarrecidos, como se acabasse de proferir uma blasfémia. Estar presente no Conselho já era uma transgressão, falar era inconcebível! Mas Eric não se deixou intimidar. Parecia-lhe bem que aquela era a batalha que decidiria o seu futuro, o seu futuro com a mulher que amava, e não sairia dali sem lutar por ela!
– Compreendo-vos! – aproveitou o silêncio. – Compreendo-vos! Sei o suficiente para compreender os vossos receios, a minha prima pode garantir-vos que sei! Pessoalmente, não me incomoda nada! Nunca me incomodou! A vossa Deusa, o vosso dom, os vossos fantasmas, que seja! Nada disso é relevante para mim e para os meus planos. Tendes razão, não sou um de vós! Não conheço na pele o que vós conheceis, e sei que deveis pensar que falo sem saber, porque não sou um de vós. Admito que sim, mas digo-vos isto: há muito tempo que penso, desde que vos conheço que penso assim, que o vosso isolamento vos é prejudicial. As pessoas temem o que não conhecem, e os vossos segredos não vos ajudam! Não digo que não vos tenha protegido no passado, concedo-vos essa sabedoria, mas não falo do passado. Falo do presente, e as coisas estão mudar no mundo lá fora. Nunca, como agora, foi altura de agarrar essa mudança para vosso benefício! As pessoas temem-vos, é por isso que vos perseguem. Seguramente não vos estou a dar uma novidade?!... Quando as pessoas vos conhecerem, deixarão de vos temer. Mas para isso é preciso que vos deis a conhecer. É este o meu conselho.
Eric calou-se, por um momento, e estudou a audiência. Ouviam. Até a sacerdotisa e o taberneiro, ouviam. Não os convencia, nem tal esperava conseguir, mas era já uma vitória!... Bem, quase uma vitória. Alguém o ouvia também, alguém o olhava de olhos incandescentes, cheios de mágoa, numa das pontas mais afastadas da multidão. Alguém que o acusava de não ter compreendido nada. Melissen, zangada, voltou as costas e abandonou o Conselho. Eric viu-a ir, e compreendeu. Compreendeu a mágoa, compreendeu o medo. Jamais as suas palavras ecoariam àqueles ouvidos. Mas ainda podiam ecoar a outros!
– Não estou aqui para abrir as portas do vosso mundo ao mundo lá fora. – continuou, para a sacerdotisa, para o taberneiro, para todos os que viam nele uma ameaça. – Não foi esse o meu acordo com as Terras Verdes, que conto como aliados desde o fim da guerra. Foi o acordo, e jamais vos pediria o contrário da minha palavra dada, nem tal me passa pela cabeça! Deixo apenas o meu conselho, que sejais vós a descobrir o mundo lá fora, e como mudou desde que o conhecestes! Mas aconselho cautela. A mesma cautela que aconselhais à minha prima. Sei o que temeis e sei que tendes motivos para temer. Mas não a mim. Nada tendes a temer de mim e não estou aqui para perturbar o vosso refúgio. Sabe Deus que todos precisamos de um refúgio de vez em quando!... Era o que vos queria dizer, e agradeço por me ouvirdes. Percebo que o meu lugar não é aqui, apesar da generosidade da minha prima, que me convidou como se não fosse um estranho. Sei que o sou, e respeitarei as vossas tradições como espero que respeitem as minhas. Deixo-vos, agora, ao vosso Conselho. Um bom dia para todos, ou um bom Solstício, seja como for que se diz aqui!
Terminando, Eric tornou a estudar a audiência. Não era uma vitória, mas era qualquer coisa. Era o melhor que se podia conseguir. Tudo o resto lhe escapava das mãos.
Dignamente, o imperador pegou no seu filho e desceu os degraus. As ruas de gente abriram-se para o deixar passar, e um desorientado silêncio encheu a praça.
Hildegaard esperou, como se ao longe ainda soubesse onde ele ia, e só falou quando o seu primo já não a podia ouvir:
– E agora ele ficou a pensar que convoquei este Conselho para vos pedir permissão! – explicou, com um sorriso travesso, e cruzou os braços no peito. – Não era disso que tratava este Conselho, mas o meu primo tem razão. Visitei o reino, recentemente, e existe mudança. Não o suficiente, mas existe.
– Não o suficiente, – Etha interrompeu, enérgica, para a multidão – mas é a primeira vez em muitos anos que as Terras Verdes têm um amigo. Um amigo que zela pelos nossos interesses, que zelará muito mais se os nossos interesses forem os dele!
– Basta, Etha! Já toda a gente percebeu o que pensas. – Hildegaard ralhou. Às vezes, por muito que gostasse daquela amiga, Etha conseguia irritá-la! – Mas também a Etha tem razão, e isso deve pesar na vossa decisão. Gente das Terras Verdes, não estou aqui para vos pedir permissão. Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que neste Conselho me escolhestes como vossa soberana. Agradeço a vossa confiança, e sempre farei tudo para merecer essa honra. Os argumentos foram debatidos. Todos falaram. Até o meu primo falou! Todos sabemos o que está em causa. – e Hildegaard olhou a todos, de um lado ao outro da praça. – A vossa decisão pesará na minha, como sempre pesou. Pergunto-vos, aqui e hoje: se a minha decisão for aceitar o pedido do meu primo, devemos eleger outro soberano nas Terras Verdes? Há muito tempo, desde sempre, que o Unicórnio é senhor nestes domínios. Mas tudo muda, a vida é mudança. De tudo abdicarei se for o melhor para as Terras Verdes. Sabei isto, sabei sempre isto. O meu compromisso é convosco, sempre, convosco. E agora, vamos votar.



Continua...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO XII

Já publicado:
Solstício I
Solstício II
Solstício III
Solstício IV
Solstício V
Solstício VI
Solstício VII
Solstício VIII
Solstício IX
Solstício X
Solstício XI



Hildegaard acordou nos braços do seu primo e levantou a cabeça, sobressaltada. Ainda era noite, lá fora, apenas uma lamparina ardia no quarto. Mais tranquila, voltou a pousar a cabeça na almofada. Não queria faltar ao ritual da madrugada, nem tinha sido sua intenção adormecer, mas o sono vencera-a, e o conforto naqueles braços... Baixinho, a voz no seu íntimo perguntava também: porque não?
Suavemente, Hildegaard esgueirou-se para fora da cama e o frio no quarto arrepiou-lhe a pele nua. Depressa, procurou a sua roupa e vestiu-se. Era hora de acordar Eric também, mas ele dormia tão profundamente, tão serenamente...
O silêncio era completo. Nem os ramos das árvores se ouviam, naquela noite sem vento. Hildegaard aproximou-se da janela e contemplou a escuridão. Nada se via lá fora, até a lua já se tinha escondido. Era deveras a hora das trevas, a hora mais escura da noite mais longa. A hora de se recolher dentro de si própria, e ouvir.
Há mais de um ano que Eric insistia. Por duas vezes a tinha pedido em casamento, por duas vezes tinha dito não. Mas nessa noite, naquele quarto, Eric tinha-a olhado nos olhos, e já não era tão insistente, a pergunta: Porque não?
– A minha liberdade. Não quero perder a minha liberdade. – Hildegaard tinha respondido, e já não era tão convicta a resposta...
Mas algo tinha acontecido, dessa vez, nos olhos profundos do seu primo. Uma aceitação, um resignar, um desistir... Eric tinha compreendido, e com um beijo nada mais disse. Não voltaria a perguntar.
Hildegaard surpreendeu uma lágrima que lhe escapou pelo rosto abaixo. E agora ele partiria, e agora diriam adeus, e aquele amor transformar-se-ia em memória... Eric teria uma vida, lá longe, no reino, mas já não havia vida nas Terras Verdes. Hildegaard sabia, como todos sabiam, que já não era vida o que os animava. Era repetição, era vazio, eram como aqueles fantasmas errantes que nem sabiam que estavam mortos.
Que vida era aquela, em que não vivia? Que liberdade era aquela, em que se aprisionava? Sim, era a última vez. Hildegaard sabia que era a última vez que amava, a última vez que escolhia, a última bifurcação no caminho. O vazio, familiar e seguro, ou o futuro, imprevisível e desconhecido... que era a vida.
Que confusão era aquela agora? Hildegaard julgava já ter escolhido. Que indecisão era aquela agora, em que sensatez e cobardia se confundiam?...
Ao longe, os cânticos recomeçaram. Uma fila de archotes, na noite escura, já subia a colina... E tudo era vazio, e tudo tinha perdido o significado.
Hildegaard sentou-se na cama e abanou o seu primo, suavemente, gentilmente.
– Acorda. Temos de ir à cerimónia. As Boas Vindas, a última cerimónia do Solstício.
– O quê?! – Eric perguntou, esfregando os olhos. – Mas ainda é de noite!
– Já não será noite por muito mais tempo. O Sol vai nascer. Vamos dar-lhe as boas vindas.
Eric esforçou-se por acordar completamente e soergueu-se da almofada, espantado e confuso.
– Pensei que isso tinha sido ontem...
– Não. Ontem celebrámos a noite, hoje celebramos o dia. Acorda! É a Vigília! Nem sequer devíamos ter adormecido! – e Hildegaard sorriu, divertida. A última coisa que o seu primo queria fazer era sair daquela cama, mas corajosamente conformava-se. – Vou acordar o menino. Quero que ele venha e assista.
Hildegaard já se levantava, quando Eric lhe pegou no pulso. Acordado, completamente acordado, lia-se-lhe nos olhos que recordava aquele pedaço de noite, aquele pedaço de longínqua memória em que em breve se transformaria o que tinham partilhado há horas naquela cama. Suavemente, quase numa despedida também, Eric aproximou-se e beijou-a nos lábios. E era só, e era tudo.
E era o fim. Amargo e doloroso, era o fim. Hildegaard sacudiu a cabeça, como se falasse consigo própria.  Era mesmo aquilo o que queria para a sua vida, solidão e vazio? No caminho, a bifurcação fechava-se, fechava-se, e o tempo esgotava-se... No seu íntimo, no seu coração, teria já escolhido?
– Apressa-te, não temos muito tempo. – recordou ao seu primo, e saiu do quarto.



Continua...

domingo, 18 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO XI

Já publicado:
Solstício I
Solstício II
Solstício III
Solstício IV
Solstício V
Solstício VI
Solstício VII
Solstício VIII
Solstício IX
Solstício X



A cerimónia acontecia no meio da floresta. Sob um crescente de lua brilhante que não bastava para iluminar a noite, Hildegaard guiou o seu primo por entre as árvores como se conhecesse o caminho de olhos fechados. Levavam dois archotes, mas apagados. Um exigência da cerimónia, ao que parecia. A alumiar o caminho, Hildegaard usava apenas uma lanterna de barro. Outras luzes, no escuro da floresta, longe e perto, informavam que mais gente se encaminhava para o mesmo sítio.
Os cânticos provinham da clareira em frente. Ao chegar, as pessoas apagavam as lanternas e espalhavam-se em círculo em volta dos celebrantes. Hildegaard apagou a sua lanterna também e espetou o archote no chão.
No centro, Eric vislumbrou pela primeira vez as figuras que cantavam. Homens e mulheres, vestidos numa espécie de hábito azul escuro, como monges, até no capuz que lhes escondia as feições. Aparentemente, eles e elas na mesma função! Padres? Sacerdotisas? Eric não sabiam como se chamavam ali.
Também estes se dispunham em círculo, em redor de uma grande pedra rectangular, branca e polida, que devia servir de altar. Quando os cânticos terminaram, uma das mulheres descobriu a cabeça grisalha e pegou na pequena candeia sobre a pedra. Imediatamente todas as outras luzes se apagaram. Tinha começado!
A mulher, alta e magra, escondeu nas duas mãos a pequena chama que quase morria num último sopro azulado. Tudo ficou escuro, tudo ficou em silêncio ao frio luar.
– Esta noite, celebramos as trevas. – disse a mulher, majestosa, litúrgica, a voz forte e grave para que chegasse a todos os presentes. – Tal como a semente germina nas trevas, possa a nossa alma florescer nas horas mais sombrias. Esta noite, celebramos as trevas.

Esta noite celebramos as trevas.
Repetiram todos, Hildegaard com eles.
Eric tentou não se sobressaltar, pela primeira vez pouco à vontade com o aspecto estranho e desconhecido daquilo tudo. Quantas pessoas poderiam estar à volta daquele círculo, e na escuridão das árvores? Cem, duzentas? Mais? O coro de vozes era intimidante o suficiente.

– Esta é a noite mais longa, mas amanhã o dia vence a noite. – continuava a mulher, e abriu as mãos. A pequena chama estremeceu e reluziu mais forte, iluminando-lhe o rosto enrugado de anciã. Erguendo os braços, a celebrante ergueu a candeia acima da cabeça. – Amanhã, o dia vence a noite!

Amanhã, o dia vence a noite!

– Não temamos a noite mais longa, o fim deste ano, mas aprendamos dela a renascer das trevas. Esta noite celebramos as trevas e acolhemos o inverno nos nossos corações. Tal como a terra guarda a noite da semente, recolhamo-nos dentro de nós para frutificar mais tarde. Esta noite celebramos o inverno.

Esta noite celebramos o inverno.

– Nesta noite de vigília, lembramos as trevas e esperamos o sol.

Esperamos o sol.

Dois homens e duas mulheres de capuz aproximaram mechas à chama que a sacerdotisa segurava, e afastaram-se em diferentes direcções. Os outros pegaram nos sinos também disponíveis no altar.

– Agradecemos a terra! – exclamou a anciã, e os sinos tocaram, e à sua frente um dos quatro celebrantes avançou até à lenha previamente disposta em círculo no chão. Todos repetiram, e o lume foi aceso. – Agradecemos a água! – a mulher comandou, voltando-se para a sua esquerda, e os sinos tocaram, e todos repetiram, e outra fogueira foi acesa à sua frente. – Agradecemos o fogo! Agradecemos o ar!
Quando a sacerdotisa tinha descrito uma roda completa, quatro fogueiras ardiam, em forma de cruz.
– Um crucifixo? – Eric segredou ao ouvido da sua prima, abismado.
– Os quatro pontos cardeais, norte, oeste, sul, leste. – respondeu Hildegaard, e levou o dedo aos lábios para o calar.
– Agradecemos o inverno, – retomava a anciã – agradecemos a noite, agradecemos o dia, agrademos a mudança e a perenidade, a vida e a morte, o ciclo eterno. Na Grande Deusa nascemos e morremos, morremos e renascemos, e a ela retornamos. Como a terra, morremos, como o sol, renascemos.

Como o sol, renascemos.

– Nesta noite de vigília esperamos o sol, acolhemos o novo ano e agradecemos os frutos do ano que findou.
Todos os celebrantes tomaram nas mãos um género de facas, talvez adagas cerimoniais, e Eric franziu o sobrolho... No que se tornou a parte mais familiar de toda a cerimónia. Entre a cruz das quatro fogueiras, a mulher falava agora de agradecer o pão e o vinho, e as pessoas aproximavam-se dos celebrantes, em fila, que deles aceitavam pão e o cortavam em fatias, e o devolviam, como se benzido. Esse ritual durou muito tempo, e depois a mulher falou do vinho, e logo todos os celebrantes apareceram com ele, e encheram pequenos copos que os presentes tinham trazido. Surpreso, Eric aceitou o copo que Hildegaard lhe fornecia, prevenida, e o vinho que o padre.... o sacerdote lhe serviu dentro dele.
– Prima, isto já parece uma missa! – confessou-lhe num murmúrio, assim que julgou seguro que ninguém ouvisse.
Hildegaard apenas sorriu, a princípio, mas depois... as suas próprias memórias traíram-na. Tinha temido que o seu primo reagisse chocado com o que via, que os julgasse um pernicioso bando de incréus, mas sim, parecia uma missa! Parecia mesmo uma missa! E a ideia, a absurdidade de tudo aquilo, o secretismo de tudo aquilo, saltou-lhe para fora num riso que não conseguiu controlar.
Todos se voltaram para ela, homens e mulheres e celebrantes, indignados. Hildegaard disfarçou e baixou a cabeça, tentando não rir mais. Os olhares desviaram-se para o imperador. A má influência que fazia rir a sua prima durante um ritual sagrado! Eric quase os podia ouvir, sem falarem. Era de todas a sua última intenção, causar problemas à sua prima por causa da religião, ou o que quer que aquilo fosse, e prometeu a si próprio não tornar a abrir a boca.
Felizmente, o que a sacerdotisa fez a seguir já não lhe inspirava gracejos. Agora a mulher falava de devolver à terra o fruto da terra, fosse isso o que fosse, e despejou sobre o altar um copo de vinho. O líquido escorreu vermelho, escuro e denso à luz do fogo. Eric quase adivinhou que não seria vinho o que antes derramavam sobre aquela pedra... mas nem quis perguntar.
Os celebrantes deitaram nas fogueiras umas ervas em pó, pelo cheiro um incenso aromático, e chamas azuis subiram no ar.

– Nesta noite de vigília celebramos as trevas! – reiterava a sacerdotisa, tal como na igreja. – Na Grande Deusa morremos e renascemos, como esta noite morre e o sol renasce. Celebremos as trevas antes da luz, que a luz já se aproxima!

A luz já se aproxima!

– Levai convosco a luz!

Tinha terminado, ao que parecia, porque Hildegaard, e todos os outros, pegaram nos archotes que tinham trazido e foram acendê-los nas quatro fogueiras. As conversas e os risos regressaram, como acontecia a seguir à missa, e tal como na igreja os conhecidos cumprimentavam-se e trocavam beijos e abraços. Os sacerdotes e as sacerdotisas descobriram o rosto, e depois da liturgia pareciam tão comuns como os restantes... E Eric deixou cair o queixo de espanto ao reconhecer Etha entre eles. Fosse ela quem fosse, a mulher sem pêlos no rosto, era importante nas Terras Verdes. Jamais teria adivinhado!
Hildegaard não se demorou nos cumprimentos. Eric desconfiava mesmo que o lugar dela naquele ritual não era tão distante do círculo, tão afastados tinham permanecido os dois, como meros observadores. Mas compreendia-se. Ele era um observador. Só pela mão dela teria visto o que tinha acabado de presenciar.
Algumas pessoas ficavam, outras começavam a ir-se embora. Com os dois archotes acesos, Eric e Hildegaard seguiram também o seu caminho.
Desta vez, temendo o resultado, o imperador tomou toda a cautela ao falar, já muito longe da clareira, onde já reconhecia as imediações do castelo:
– E agora isto parece uma procissão! – tornou a gracejar, indicando o archote.
Hildegaard riu, e ainda se riu mais recordando o riso embaraçado durante a cerimónia. Conseguia rir-se tanto, e tantas vezes, quando estava com ele! Seria tão difícil renunciar a esse riso!
– Então, deixa-me ver se compreendi. – Eric considerou, estreitando os olhos como se precisasse de se concentrar. – É a luz do Sol que levamos para casa nestes archotes!
– Bem, não é a luz do Sol...
– É a luz que nos lembra de que o Sol regressará, para não termos medo do escuro!
Hildegaard não chegou a responder. Outra gargalhada a impediu.
– E o vinho simboliza os sacrifícios de sangue, quando cortavam a garganta a qualquer desgraçado em cima daquela pedra... Confesso, por uns instantes, tive medo que esse desgraçado fosse eu...
Eric gracejava, ou talvez não gracejasse, e já não era motivo para rir mas Hildegaard tinha aprendido a entender aquele sentido de humor. Nem todos o entendiam.
– Só não percebi quem é a Grande Deusa. – meio a brincar, Eric admitiu a sua perplexidade. – Quem é a Grande Deusa?
Hildegaard parou de rir, somente um sorriso lhe permanecia nos lábios, ponderando antes de esclarecer: 
– A Grande Deusa é o teu Deus. São o mesmo, porque só há Um. Eric, todos aqui estamos convertidos. Muitas das nossas práticas foram roubadas à Igreja, e o contrário também. Era inevitável. Não faz sentido continuarmos com estas rivalidades. Mas vai dizer isso à tua Igreja!... – lamentou.
Por um bocado caminharam em silêncio. O castelo já se avistava ao luar quando Eric indagou, pensativo:
– Prima, acreditas em Deus? Nunca te perguntei porque não é importante. Mas estou curioso.
Era estranho, que alguém que dizia falar com os mortos demorasse tanto tempo a responder. Novamente Hildegaard tomou o seu tempo, e uma seriedade diferente acompanhou-lhe as palavras.
– Não sei no que acredito. – admitiu ela por fim. – Às vezes penso que somos postos no mundo sozinhos e às escuras, de propósito para nos obrigar a encontrar o nosso caminho.
A resposta surpreendeu o imperador. A profundidade, na sua prima, uma profundidade que nem sempre se adivinhava dela, porque a calava para si, porque só cautelosamente a revelava, ainda o deixava boquiaberto... Mais encantado do que boquiaberto!
– Sim, sem dúvida. É melhor que encontremos o nosso caminho. Ou outros se apressarão em encontrar um caminho para nós. – Eric meditou, numa profundidade mais amarga, e os olhos verdes da sua prima concordaram, cúmplices.
Os archotes ficaram à porta. Hildegaard tinha planos para eles, mais tarde, mas por agora não queria desencorajar o seu primo com a revelação de que o Solstício ainda não tinha chegado ao fim. Havia mais, de madrugada.
– Apetece-me beber o resto daquela aguardente que deixámos a meio... – disse ele, e já se encaminhava para o salão... quando Hildegaard lhe pegou no braço.
– Estamos sozinhos. – segredou-lhe, olhos nos olhos. Não, não o deixaria partir sem uma despedida! Podia ser a última vez que olhava assim aqueles olhos, azuis e profundos. Porque quando dissesse não, o definitivo não, aqueles olhos pertenceriam a outra. Outra mulher, uma mulher qualquer com quem o seu primo teria de casar, e a mera ideia a agoniava por dentro... Não suportaria partilhá-lo. Não tinha nascido, orgulhosa e altiva, capaz de partilhar. Mas não precisava de o partilhar ainda. A noite era longa, ainda havia tempo. – Estamos sozinhos. – repetiu, no silêncio, e deixou que os olhos lhe dissessem tudo o que os lábios não precisavam de pronunciar. O castelo era deles, a noite era deles, o silêncio era um aliado. Ninguém a ouvir, ninguém a julgar. Ninguém a quem prestar contas.
Eric compreendeu, naqueles olhos sérios que o chamavam, e seriamente, suavemente, acariciou-lhe o rosto. Não era o que queria e era o que mais queria! Não uma amante, só uma amante, mas tanto mais que isso! Entristecia-o, dizer adeus. Porque perguntaria, mais tarde, perguntaria de novo, mas já tinha perguntado tantas vezes, e era sempre a mesma, a resposta!
Hildegaard aproximou-se, e o seu beijo leve espantou-lhe a tristeza. Oh, ela cheirava... a floresta. A ramos verdes e bravios, e a ouro... Eric enlaçou-a nos braços e deixou que os dedos lhe percorressem aqueles cabelos da cor de ouro antigo, da cor dos dele... Demasiado próximo, o sangue que os unia? Nem lhe importaria, se o fosse, mas o verde daqueles olhos dizia-lhe: não, não demasiado próximo. Ela era a mulher que queria, a mulher que desejava, a mulher que nascera para reinar ao seu lado. Agora Eric sabia, tinha a certeza, e os pensamentos calaram-se-lhe nos beijos que o entonteceram. A noite era longa, podia pensar depois.




Continua... 

sábado, 17 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO X

Já publicado:
Solstício I
Solstício II
Solstício III
Solstício IV
Solstício V
Solstício VI
Solstício VII
Solstício VIII
Solstício IX



Eric já não troçava das lamparinas que enchiam o salão de luz dourada, calorosa, como uma verdadeira noite de festa. Depois de mais um faustoso jantar, o menino já tinha ido para a cama, exausto daquele dia cheio de passeios e novidades. À mesa, Eric e Hildegaard tinham abandonado as guloseimas para em vez disso experimentarem os melhores licores que nesse ano tinham agraciado aquelas terras.
O silêncio voltava a reinar no castelo e Eric olhou na direcção do corredor, um pensamento menos agradável a carregar-lhe o semblante:
– Algo que me diz que costumas passar estes dias na companhia dos que te são caros. Não é verdade, não são aquelas pessoas a tua gente, a tua família? Se eu não tivesse vindo, não é verdade que estarias agora com eles, a outra mesa, mas com eles?
Hildegaard levou o licor aos lábios, e hesitou e ganhou tempo, mas só havia uma resposta:
– É verdade. E também é verdade que eles me conhecem, e que sabem que agora tenho um primo. E eles sabem que muito dificilmente esta ocasião se vai repetir. – e suavemente Hildegaard pegou-lhe na mão, e os olhos verdes brilharam-lhe na promessa: – Esta noite, é só para nós. Estamos sozinhos. Por esta altura, já foram todos para casa das famílias deles. Menos o casal de velhotes, esses estão na cama. Alguém tem que ficar aqui e tomar conta do teu filho quando formos à Vigília... Mas antes disso, conta-me o que a Melissen te disse.
Com um suspiro, Eric cruzou a perna e contou.
– Vai ser difícil explicar ao Capitão Lars. – acrescentou, de semblante franzido. – Ele vai querer justiça, mas duvido que alguma justiça possa ser feita! Passou-se há trinta anos! Muitas das pessoas já nem devem ser vivas! E a nossa única testemunha, a única que pode identificar os envolvidos, jurou nunca mais abandonar as Terras Verdes! Verei o que posso fazer, e indagarei na medida do possível... Mas muitas coisas que aconteceram no tempo da guerra ficaram impunes, os nobres tinham mais com que se preocupar do que fazer justiça, e acho que esta vai ser uma delas. Espero que o Lars fique contente por descobrir que teve um primo que lutou ao lado dele, mesmo sem o saber, e uma pequena prima que ainda pode vir a conhecer um dia... Quem sabe. – e Eric bebeu também do seu copo, erguendo as sobrancelhas num trejeito de incerteza. – É estranho como as coisas são. Quando a Melissen me falou do aposento que era o dela, que era o deles... Sei que aposento é aquele. Era o quarto da Reena, no meu castelo. E as roupas que a Melissen deixou para trás, e que o Reid deixou para trás, foram as roupas que a Reena e o Rurik usaram quando chegaram ao castelo sem nada de seu... Por amor de Deus, não lhes contes a quem pertenceram essas roupas! A Reena, especialmente, não pode saber deste horror! Já basta tudo o que a desgraçada passou ela própria, tudo o que lhe destruiu a mente!
– Não vejo razão para contar. – Hildegaard concordou, mas uma sombra pousara-lhe nos olhos baixos, e nenhum vestígio restava do seu sorriso. – Viste-a, este ano? Como te pareceu? Não a achei nada bem da última vez que a vi.
– Sim, fui a Dois Portos no verão. Achei-a melhor, menos triste. Mas agora já a conheces, prima. Menos triste é o melhor que se pode esperar dela...
Hildegaard tentou sorrir, pela sua amiga de Dois Portos, mas o sorriso morreu-lhe nos lábios. Algo a preocupava mais, algo de que era urgente falar... Hesitante, levantou-se e foi buscar qualquer coisa que a esperava no topo da lareira.
– Isto é para ti. – mostrou ao seu primo, um curioso artefacto de canas penduradas por finas cordas que uma pequena argola rematava. – Para o jardim do teu novo palácio em Dois Portos. – e exemplificou, agitando o presente entre os dedos: – Quando há brisa, faz este som encantador, escuta!
– Sim, é bonito... – Eric balbuciou, apanhado de surpresa, mas Hildegaard não lhe permitiu desfazer-se em agradecimentos por causa de uma coisa que lhe devia parecer tão insignificante:
– Os ciganos chamam-lhe espanta-espíritos. – continuou, e a seriedade nos seus olhos avisava o seu primo que aquela não era uma conversa sobre adornos. – Os ciganos passam por aqui. Também não gostam muito de nós, são um povo supersticioso, mas sabem que são bem recebidos. Foram eles quem primeiro trouxe estes espanta-espíritos com eles, pendurados nas carroças. Acreditam que o barulho afasta os fantasmas. Mas os ciganos estão enganados. Os fantasmas não têm medo do barulho. Alguns, os mais bem educados, têm a gentileza de enviar uma brisa para anunciar a sua presença, como quem bate à porta. Comigo, isto é.
Pousando o artefacto, Hildegaard encostou-se à beira da mesa, de braços cruzados e semblante compenetrado. Desta vez, o seu primo precisava de a compreender!
– Disse-te antes que os mortos falam comigo. Sei que não acreditas, ou que não te importas, não interessa. Mas tens de me escutar, porque mais tarde ou mais cedo vai importar-te... Quando eu era pequena, muito pequena, da idade do teu filho, não distinguia os vivos dos mortos. Alguns contavam-me histórias, de belos palácios e vastos jardins onde os sinos tilintavam na brisa... Só mais tarde percebi que me falavam de outras terras, de outros tempos, do tempo deles... – e Hildegaard olhou-o nos olhos, fitou-o nos olhos como se assim pudesse falar-lhe directamente à alma. – Quando hoje conversavas com a Melissen, o Reid veio à minha presença. Como ele era, jovem e tudo, veio pedir-me que transmita uma mensagem à sua esposa. Quer que lhe diga que não sabe como morreu. Que lhe bateram na cabeça e não tornou a acordar. Isto diz-te alguma coisa?
Por um instante, Eric calou-se no arrepio de frio que lhe percorreu a coluna de alto a baixo, mas logo um sorriso divertido lhe tranquilizou as feições:
– Prima, estiveste a escutar à porta?
Também aquela era uma resposta, de que sim, dizia-lhe alguma coisa, e Hildegaard ignorou a troça.
– O teu filho também o viu. Hoje, no castelo, ele viu o Reid, tal como eu o vi. Na verdade, viu-o primeiro do que eu!...
– O meu filho?! Estás a dizer que o meu filho vê fantasmas, um menino daquela idade?! – Eric interrompeu, numa gargalhada nervosa. – Não sabes o que ele viu!
– Sei o que ele viu! – Hildegaard reiterou, sem que o seu semblante se alterasse. – Eu já desconfiava, primo, desde o primeiro instante em que pus os olhos naquele menino, mas o dom não se manifesta de forma igual em toda a gente, e eu não tinha a certeza. Mas agora tenho. O teu filho tem o dom, e é disso que temos de falar. Dentro em breve, ele vai começar a ver pessoas, a falar com pessoas, sem saber que ninguém as vê senão ele. Vai começar a usar palavras estranhas, as palavras que ouve. E um dia vais perceber, primo, que ele corre perigo. E vais ter de ser tu a protegê-lo, a ensiná-lo a calar isso que vê, como os meus pais me ensinaram a mim, quer acredites ou não. Não te sei explicar como é que ele tem o dom. Tu não o tens, a mãe dele não o tinha. É muito raro, mas não seria o primeiro caso. Talvez o tenha mesmo herdado de ti, como às vezes se herda de um avô a cor dos olhos, a cor dos cabelos, quando salta uma geração. Não me importa que não acredites. O que me importa é que percebas, que te prepares, porque um dia ele vai precisar da tua protecção e não lhe podes falhar!
Nos olhos dela, o tremeluzir das pequenas lamparinas faiscavam como reflexos de esmeralda. Eric nunca a tinha visto tão séria, tão grave, convencida de que o menino era... Que era o quê, igual a ela?! Quase a tinha interrompido, ao ouvi-la falar, quase a tinha calado, na ânsia de a contradizer... Mas agora Eric reconsiderava. Não, não a contradiria. Nada lhe interessava, contradizê-la.
– Como queiras. Não vou discutir. Não acredito que o meu filho veja fantasmas, mas não vou discutir. O que me espanta, Hildegaard, é outra coisa. O medo, em ti. O mesmo medo que vi hoje nos olhos daquela pobre mulher. Não quero que o meu filho cresça no medo. Não quero que vivas no medo! Por favor não me digas que é o medo que te prende aqui, que também temes que nos aconteça o que aconteceu àqueles dois desgraçados...
– E achas que não é caso para ter medo?! – Hildegaard ripostou, e afastou-se da mesa. Arreliada e de costas voltadas, deu alguns passos pelo salão... e estacou frente ao fogo que ardia na lareira. – Sim, tenho medo de morrer numa fogueira. Sim, tenho medo pelo menino! Era isso que querias ouvir? – e zangada virou-se para ele, as faces rubras como raramente lhas tinha visto. – Quase mataram a Melissen, que nem sequer tem o dom! Eu falo com os mortos, Eric! Eu falo com os mortos! Que achas que me fariam no mundo lá fora?!
– À Rainha, à minha Rainha?! – Eric debruçou-se para a frente, convicto. – Queres comparar uma rainha a uma pobre criada, jovem e ingénua, sem exércitos que a protegessem?! Falámos de Justiça. De como vai ser difícil fazer justiça quando a vítima nem se atreve a acusar os malfeitores! Pensa na tua gente, Hildegaard! De que maneira pode a soberana das Terras Verdes ajudar mais a sua gente, aqui exilada neste ermo, permitindo que Igreja e aldeões supersticiosos vos apelidem de bruxas e feiticeiros, ou lá fora, em frente do reino, sentada no trono, ao meu lado?! Onde a violência cometida contra o povo da rainha é um insulto à própria rainha?!
O crepitar do fogo, no silêncio, quase estremecia a figura da bela mulher que por instantes ficou sem palavras. Hildegaard nunca tinha pensado nisso assim. De outras formas, mas não assim.
– Queimaram a minha bisavó na fogueira, sabes bem! – recordou, o que jamais queria recordar.
– Ah, mas foi mesmo por ser uma bruxa?! Não foi antes porque era uma conspiradora, por incitar as casas nobres uma contra as outras, para poder ela reclamar a coroa, não foi por isso que toda a nobreza a abandonou, e que o rei a abandonou, à Igreja e ao seu destino? Porque parece-me a mim que a tua bisavó teria sido acusada de traição se não o tivesse sido antes de bruxaria. A tua bisavó, que era a minha tia-avó, que morreu na fogueira gritando uma maldição contra o rei e os seus descendentes, contra mim!
Arrependido, Eric calou-se. Tinha-se irritado, e Hildegaard não tinha culpa nenhuma, nenhum dos dois tinha culpa, e se Hildegaard tinha razão ele não a tinha menos, e aqueles acontecimentos do passado de nada serviam. De nada tinham servido.
– Duas famílias chacinaram-se uma à outra, e para quê? Não conseguiram impedir-nos de estar aqui, juntos, onde queremos estar! Já conseguimos tanto, prima, já conseguimos enterrar o passado! Imagina o que conseguiríamos juntos se decidíssemos mudar o futuro!
Hildegaard ainda meditava no que ouvira antes. Não caberia à soberana das Terras Verdes zelar pelo seu povo de outra maneira? Uma maneira diferente, agora que tudo era diferente? Era verdade o que diziam os inimigos do seu primo, nos dias da guerra, que antes de cortar-lhe a cabeça era preciso cortar-lhe a língua, porque aquele homem tinha deveras esse dom! Falava, e as pessoas ouviam-no.
Mas Hildegaard não cederia à tentação de o ouvir. Era a si própria que devia ouvir. No silêncio da sua alma, no íntimo do seu coração. Se ainda havia tempo, já não era muito o que restava, mas talvez ainda houvesse tempo para ouvir. Por uma última vez, ouviria.
No silêncio, cânticos longínquos chegavam lá de fora. Não eram as cantigas alegres que de porta em porta se cantavam no Solstício. Era a grande cerimónia do meio da noite, a hora das trevas.
– É a Vigília. – explicou Hildegaard, em voz baixa. – Vem. Sei que queres assistir.
Eric levantou-se, e respirou fundo.
– Desculpa se me exaltei. – implorou, os dedos tocando ao de leve o braço da sua prima, o braço forte que empunhava a espada, como mulher nenhuma a empunhava. – O meu temperamento!... O meu pior defeito!
– Não é o teu pior defeito. – Hildegaard abanou a cabeça, e conseguiu um ténue sorriso. O pior defeito, naquele homem, eram aqueles olhos azuis, profundos e honestos, que lhe desassossegavam a alma. Aqueles olhos eram perigosos, porque os amava.
Suavemente, procurou-lhe os lábios, e ao de leve beijou-os. Sim, ainda tinha de ouvir melhor aquela voz, no seu íntimo, no seu coração, aquela voz que tinha conseguido calar durante tanto tempo.




Continua... 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO IX

Já publicado:
Solstício I
Solstício II
Solstício III
Solstício IV
Solstício V
Solstício VI
Solstício VII
Solstício VIII



– Não quer visitar o castelo? – Melissen perguntou ao imperador, surpreendida, enquanto o acompanhava ao pátio. Pela conversa dos dois primos, tinha deveras julgado que ele vinha reclamar a casa de família!
– Penso que o castelo está em muito boas mãos. – Eric respondeu, e tentou não deixar transparecer a pressa em sair dali para fora. Felizmente, a sua prima já se aproximava.
 – Vamos embora? – deduziu Hildegaard, e despediu-se de Melissen: – Um bom Solstício para ti! Não vais passá-lo aqui sozinha, pois não?
– Não. – Melissen tranquilizou-a, sorrindo. – Estou à espera da minha família.
Furtivamente, Eric levantou os olhos para a mulher que ainda há pouco quase se desfazia em lágrimas. Ainda bem que não estava sozinha! Merecia algo de bom na sua vida depois de tanta tragédia. Algo de bom, uma família... E Eric voltou a baixar os olhos, uma sombra de amarga inveja a endurecê-los. Era sempre assim, por aquela altura do ano. Todos tinham uma família, todos tinham quem os esperasse. Todos, excepto uma outra, a sua antiga serva, tão infeliz, a que só no seu abrigo encontrara o primeiro lar que tinha conhecido. Reena, pobre Reena, como estaria ela, tão longe? Sim, ela agora tinha uma família. Sim, ele agora tinha uma família. Por quanto tempo, não sabiam. Não era essa a família que lhes faltava, que sempre lhes faltaria. A primeira família. Aquela que nem sabiam o que era. Reena também não sabia, como ele não sabia. Mas dois órfãos não são dois irmãos.
Sem pensar, Eric subiu para a carroça e tomou as rédeas.
Hildegaard subiu atrás dele, e sentou o menino ao colo e não disse nada enquanto o seu primo enveredava pelo caminho íngreme por onde tinham vindo. Também não desejava parecer uma dessas mulheres, daquelas mandonas e caprichosas que queriam sempre tudo feito à sua maneira. Nunca o tinha sido, na verdade, mas talvez sempre o tivesse parecido. Hildegaard questionava-se, muitas vezes, se não seria essa a razão da falta de um amor na sua vida... Mas agora era tarde, tarde para tudo. Tarde até para se questionar.
– Descobriste o que vieste saber? – perguntou ao seu primo, e Eric acenou afirmativamente e inclinou a cabeça na direcção do pequenino.
– Descobri, e não é bom. Conto-te mais tarde.
Ainda há pouco era meio-dia, e já o entardecer se vinha anunciar! Os pássaros diurnos chilreavam, sobressaltados, na urgência de regressarem aos ninhos. Uma coruja madrugadora sobrevoou a carroça e pousou num ramo altivo, anunciando a chegada do seu reinado. Quando a carroça se aproximou da vila, no vale entre montanhas, a noite já tinha caído.
Hildegaard tinha reparado no silêncio do seu primo, um silêncio profundo e pesado que podia ter a ver com a visita dessa tarde... Mas havia algo mais naquele silêncio. Uma melancolia que era só dele, que já lhe tinha visto muitas vezes. A melancolia silenciosa que o tragava de volta para o passado. Por sua vontade, não o teria levado àquele castelo...
– O que estão eles a fazer? – Eric indagou, subitamente desperto, quando se cruzaram com os primeiros aldeões que atarefados decoravam as árvores perenes em volta de suas casas. Era o que pareciam fazer, enfeitando-lhes as pernadas mais fortes com lamparinas acesas, adornando-lhes os troncos e ramos com fitas de trigo entrelaçado, guardadas desde as colheitas, douradas e resplandecentes ao brilho das pequenas candeias. Mais à frente, outros aldeões faziam o mesmo, e a floresta iluminava-se, árvores e árvores e árvores até a vista alcançar, como um céu cheio de estrelas.
– É o Solstício. – explicou Hildegaard, encolhendo os ombros. Nem lhe tinha passado pela cabeça que o seu primo se admirasse! Mas claro que se admirava, porque não sabia! – As luzes simbolizam o Sol. As lamparinas são acesas na esperança de que o Sol regresse, de madrugada, apesar da noite tão longa.
– Claro que o Sol vai regressar! – Eric exclamou, perplexo, e Hildegaard respondeu com um risinho. – Oh, não me digas que vós aqui ainda adorais o Sol!...
E Eric voltou-se para ela, de sobrolho franzido. Não era o choque de um homem religioso perante a heresia; era a estupefacção de um homem instruído perante o que devia considerar um autêntico disparate!
– Não te preocupes, primo, já ninguém aqui adora o Sol. Nem os deuses das árvores. – e como ele reagisse ainda mais abismado, Hildegaard riu de novo e abanou a cabeça. – Não, também não adoramos os deuses das árvores! Mas há muito tempo, talvez milénios, os povos desta terra adoravam os deuses das árvores, e os deuses da água, e os deuses da terra. Todos os deuses eram adorados, tantos quanto havia na natureza. Acreditava-se que esses deuses tinham de ser celebrados para recompensarem as gentes com boas colheitas. As fitas de trigo ainda restam desses tempos, ofertas aos deuses das colheitas. E antes de falares demais, lembra-te de que a tua igreja também reza por boas colheitas!... Bem, aqui, damos as boas vindas ao Sol, e esta noite é a celebração do seu regresso. O Solstício, a noite mais longa do ano. Os antigos, talvez tivessem medo de que o Sol não regressasse. Que a noite, e o inverno, e o frio, não se fossem embora. O que estamos a celebrar aqui, primo, é já a esperança na próxima primavera. Esta é a noite mais longa, mas amanhã o dia vence a noite, e as noites serão cada vez mais curtas. É isso que celebramos.
Com um sorriso divertido, Eric aceitou a explicação. Os monges, no mosteiro onde fora educado, saltariam de raiva perante aqueles ritos pagãos, mas Eric não se importava. As lamparinas, pequenas chamas dançando em volta das árvores, brilhavam mais intensamente no ar frio e denso. De todas as chaminés cheirava a lenha nos fogões e a boa comida nos tachos. A noite, assim iluminada, acolhia os viajantes tardios que pelo caminho se cruzavam com a carroça e se dirigiam para casa. Viajantes como eles, e subitamente Eric também desejou chegar a casa. A lareira esperava-os, a mesa posta esperava-os. O calor dos sorrisos da sua prima e do seu filho esperavam-no.
Da janela do castelo, quando chegaram, a vista era ainda mais magnífica! Eric tomou o menino nos braços para lhe mostrar, de tão alto, o céu todo estrelado, a floresta cheia de estrelas. Aquilo era algo que nunca tinham contemplado, e o rapazinho olhava e sorria, boquiaberto, encantado, e Eric já achava que valeria todas as penas terem vindo às Terras Verdes só para deliciarem os olhos naquele espectáculo.
– Vê, como é bonita a terra da prima!
– Bonita! – exclamou o pequeno Eric, e apontou. Ao fundo do caminho, um grupo de homens e mulheres, à luz de archotes, subiam na direcção do castelo.
– Quem são aqueles? – Eric perguntou à sua prima, mas uma súbita azáfama já tinha tomado o salão. Todos os criados e criadas, Etha e a própria Hildegaard, se apressavam a encher bandejas e pequenos cestos com a comida que estava na mesa.
– São os cantores! Já vais perceber! Traz alguma coisa, e vem! – Hildegaard ordenou, e atrapalhado Eric voltou-se para a mesa e pegou num bolo de noz... Não! De certeza que iam dar a comida àquela gente que chegava e não levariam o delicioso bolo de noz! Rapidamente, pegou noutra bandeja.
Bem, parecia que teria de participar, que já estava a participar, e que só lhe restava seguir as pessoas da casa até à porta. Lá fora, o grupo de homens e mulheres, desafiando o frio com mantas e capuzes, pararam no pátio. Quando a música começou, o pequeno Eric, entusiasmado, já tinha tomado um lugar à frente de todos os adultos.
Tambores e gaitas de foles abriram caminho para as vozes femininas que logo se ergueram:
Ó da casa, não temais, a noite passará!
O sol regressará, ó da casa, não temais!

Atrás das mulheres, segurando os archotes, o coro dos homens pontuou:
Ó da casa, não temais!

A noite é longa e escura, mas o sol regressará!
Com a nossa luz viemos, a madrugada chegará!

Ó da casa, não temais!

A nossa luz trouxemos, na noite escura e fria!
Em vigília nós cantamos, e o sol regressará!

Ó da casa, não temais!

Nas trevas nós cantamos, e a noite se alumia!
A nossa luz trouxemos e o sol regressará!

Ó da casa, não temais!

O rufar de tambores e pandeiretas colheu a última nota da gaita de foles. No que era certamente uma tradição daquela época em que todos conheciam os seus lugares, as pessoas do castelo aplaudiram e os cantores ofertaram os anfitriões com ramos de verde abeto. Hildegaard foi presenteada com uma grande coroa de bonito azevinho e hera viçosa. Em troca, como se previa, os cantores recolheram no seu carrinho de mão toda aquela comida que em cestos e bandejas lhes era oferecida. Não porque precisassem! Dali, seguiriam a cantar de casa em casa, de porta em porta, como faziam todos os anos no Solstício.
Alegremente, despediram-se, e as pessoas do castelo enfeitaram as portas, a cozinha e o salão com os verdes ramos... e mais lamparinas! Aquele gente devia mesmo ter medo que o sol não regressasse, Eric troçou, mas guardou a troça no seu sorriso e nada disse. Afinal, era uma tradição engraçada e generosa, e todos pareciam contentes. Tanta comida começava a recordá-lo de que tinha fome, mas Hildegaard já fazia sinal de que eram horas de voltarem para a mesa. O muito que ainda restava, era para ser comido, e na noite mais longa do ano havia muito tempo para comer!



Continua... 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO VIII

Já publicado:
Solstício I
Solstício II
Solstício III
Solstício IV
Solstício V
Solstício VI
Solstício VII



Hildegaard tinha conduzido seu pequeno primo às traseiras do castelo. Tinha havido ali um bonito jardim, em tempos, onde as senhoras nobres se sentavam à brisa de verão enquanto as crianças brincavam. Muito do jardim se tinha perdido, até Melissen regressar. Melissen não regressou àquele castelo senão depois de Elena morrer. Hildegaard nunca tinha feito muitas perguntas, nem teria idade de as fazer, mas tudo indicava que a rainha Elena não se separara das suas aias nos melhores termos... Hildegaard julgava saber porquê, mas eram mais fortes as razões para não perguntar. Afinal, tudo estava esquecido.
Melissen tinha regressado, àquele castelo vazio, e tinha recuperado algo do jardim, e plantado uma pequena horta. Hildegaard ia na esperança de encontrar algo interessante com que entreter o menino, mas naquela altura do ano só havia couves... E felizmente, algumas flores invernais. O pequeno Eric era curioso, quase tudo o distraía. Ajoelhado na terra, observava atentamente o caminho de um minhoca como se nada de mais interessante houvesse no mundo, e Hildegaard sorria, e fingia que se interessava também. Era estranho, sentir aquilo agora, quando nunca tinha feito questão de ser mãe...
Foi o pequeno Eric quem primeiro ergueu a cabeça. Hildegaard só o sentiu um instante depois. A presença, atrás deles, a muitos passos de distância. Uma forma apenas, a princípio, a forma de um homem que se tornou cada vez mais nítida. Um jovem, de cabelos negros, longos pelos ombros. Timidamente, o jovem sorria-lhes, mas não saía do seu sítio.
Hildegaard olhou o menino, que já inspeccionava o recém-chegado sem nada nele achar estranho. Só então acenou à figura, para que se aproximasse, e o jovem sorriu mais e caminhou até eles com as passadas pesadas de um homem vivo. Fingindo-se o mais vivo possível, por causa do menino.
– Tu deves ser o tal Reid! – Hildegaard interpelou-o, cruzando os braços no peito, um tom quase arreliado na sua voz, mas o jovem explicou-se:
– Fui chamado. – e calou-se, ele próprio espantado a olhar o rapazinho que já nem lhe prestava atenção. Em vez disso, um carreiro de formigas começava a fasciná-lo. – Ele não sabe, pois não?
– Não. Ele não distingue. – Hildegaard esclareceu. A maior parte dos fantasmas nem fazia aquelas perguntas, desorientados entre um mundo e o outro, mas não parecia ser o caso de Reid. Reid sabia muito bem onde estava, com quem estava, ao que vinha. Hildegaard sentiu a tensão abandonar-lhe o corpo. A maior parte dos fantasmas era tão maçadora! – Eu também era assim, da idade dele. Não conseguia distinguir.
Reid esforçava-se por parecer vivo. No sorriso, no brilho dos olhos. Hildegaard sabia, de alguns do “outro lado”, que não era fácil.
– Vim, como já deves imaginar, com uma mensagem. – o jovem confessou, quase embaraçado. O “outro lado” sabia que Hildegaard não gostava muito de transmitir mensagens. – Peço-te, porque a minha esposa sofre. Peço-te que lhe digas que eu também não sei como morri. Bateram-me na cabeça, com qualquer coisa, e não tornei a acordar. Por favor diz-lhe, por compaixão. Ela agradecer-te-á. Há tantos anos que vive na dúvida... Eu teria vindo mais cedo, mas tu não nos querias receber. Compreendo, e não me voltarás a ver.
– De acordo. – Hildegaard acedeu. Não gostava de fazer perguntas acerca das mensagens, seria como bisbilhotar o que não era da sua conta, mas não era difícil perceber. Reid viera porque falavam da sua morte, e algo na sua morte ainda atormentava a pobre Melissen. – Dir-lhe-ei, se isso a ajuda.
Sério, grave, Reid olhou-a nos olhos. A sua aparição quase se esbatia, tal era a intensidade das suas palavras:
– Agradeço-te. Que mil bênçãos te acompanhem.
O menino aproximou-se, rindo, e mostrou-lhes o que trazia na mão. Um caracol, em forma de búzio, como nunca tinha visto. Ao chegar perto de Reid olhou para cima, e procurou-lhe os olhos, quase desconfiado, quase prestes a descobrir qualquer coisa... Hildegaard nada disse ou fez, nem quando o pequeno Eric estendeu a mão para dar aquele presente ao desconhecido. Reid compreendeu a intenção, e abriu a mão, e Hildegaard abriu a sua debaixo da dele, e foi ela quem apanhou o caracol quando o seu pequeno primo o largou. O menino não percebeu, ainda tão inocente na sua ilusão.
Vozes chegavam do outro lado da torre. Eric e Melissen acabavam de sair.
– Diz adeus! – Hildegaard lembrou o seu pequeno primo, e este acenou, enquanto Reid se afastava na direcção inversa àquela de que tinha vindo, e Reid acenava também, até desaparecer atrás da esquina da parede ao fundo, e nada ao menino parecia estranho.
Sorridente, Hildegaard colocou no chão, cuidadosamente, o minúsculo caracol. Agora já sabia o que a atraía naquela criança, mais do que sangue, mais do que instinto, mais do que amor. Ele era como ela, e ele sabia que era como ela, e tinha-a escolhido. Mais do que sangue, mais do que instinto, mais do que amor, aquele não era laço que pudesse ser quebrado.



Continua... 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO VII

Já publicado:
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Solstício IV
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Solstício VI



– Quando cheguei a casa, jurei que não voltaria a sair das Terras Verdes. E nunca mais saí. – Melissen concluiu, estremecendo, as mãos nervosas apertadas uma na outra sobre o colo, os olhos longe dali, fixos na claridade do dia que entrava pela janela.
Eric escutava em silêncio, sem um movimento, sem um pestanejar. Tinha esperado, a todo o momento, que durante o seu relato Melissen desatasse em pranto e lágrimas... mas tinha sido há muito tempo. Demasiado tempo para que restassem ainda lágrimas. Calma e composta, Melissen já tinha aceitado aquela perda, aquele terror, aquelas memórias medonhas que só no segredo do seu íntimo a perseguiam. Os olhos longínquos, feridos, pareciam rever algo que tinha acontecido a outra pessoa, há muito tempo, como se já nem tivesse sido ela. Só agora aqueles olhos regressavam, para os voltar para o imperador, para de sobrolho franzido continuar:
– Diga-lhes, aos que perguntam pelo Reid, que foi assassinado pela sua própria gente, na sua própria terra!... Diga-lhes que morreu para me salvar. Que morreu... Não sei como morreu. Fui cobarde, desviei os olhos. Tenho esperança de que o tenham matado antes... Antes do que vi, na fogueira... Mas fui cobarde, e não consegui olhar... Devia ter sido eu. Devia ter sido eu... – um soluço calou-a, e uma única lágrima sulcou-lhe o rosto abalado, mas novamente Melissen respirou fundo, e serena revelou: – Eu não sabia, ainda, que estava grávida. Ele nunca chegou a saber que ia ter um filho. O filho que salvou também, ao salvar-me a mim. Um rapaz, forte e bonito como o pai, o meu filho...
Eric atreveu-se a endireitar as costas, medindo no rosto que o fitava se era motivo para um sorriso, e para aliviar o peso da conversa e perguntar por esse tal rapaz...
– O meu filho morreu como o pai dele, a lutar. – Melissen calou-o antes que pudesse abrir a boca. – Foi à guerra, com o exército da Hildegaard. Valente como o pai, sempre foi um soldado. Como tantos outros dos nossos jovens guerreiros, não voltou a casa.... Oh, mas não julgue o culpo a si, por causa da guerra! O meu filho morreu para nos defender, porque estávamos em perigo. Pergunte-me, e dir-lhe-ei que teria preferido que ele não tivesse sido valente. Que pudesse ter ficado nos braços da sua mãe, seguro e protegido, para sempre!... Mas por mais cega que uma mãe possa ser, uma mãe também sabe quando o seu menino se faz homem. O meu filho cresceu, e fez-se homem, e seria o primeiro a partir para nos defender!... Tenho sorte, apesar de tudo, porque me deixou uma neta. Tenho uma nora, e uma neta. Uma menina linda, valente como o pai, como o avô. Tão valente que quer aprender a lutar, como a Hildegaard! Tudo farei para lhe tirar essas ideias da cabeça, mas não é fácil, com um exemplo como o da sua prima!... Não, não quero a minha netinha a lutar como um homem!...
– No que depender de mim, não haverá outra guerra onde lutar. – Eric conseguiu dizer... prometer, quase numa tentativa de se desculpar. Nada o teria preparado para o que tinha ouvido nessa tarde. O destino daquela mulher tão subitamente se entrelaçava no dele! Uma mulher que perdera o homem que amava, por culpa da sua mãe, que perdera o filho que amava, quase por sua culpa!... Eric só se admirava de não sentir ódio daqueles olhos magoados, mas Melissen era justa. Teria todas as razões para não o ser, mas sabia admitir que o homem à sua frente tinha sido também jogado, como um peão, num tabuleiro previamente preparado onde quase tudo estava decidido. Melissen sabia, e era justa. – Tem sido o meu propósito fazer a paz e manter a paz. Foi por isso que lutei, foi por isso que a Hildegaard lutou. Para que em tempo de paz coisas como a que te aconteceu não tornem a passar-se num reino de caos...
Melissen ergueu os olhos para os dele, e tão acesos os ergueu que foi como se lhe chamasse tolo.
– Sei que pediu a nossa Hildegaard em casamento. Sei que pensa torná-la rainha, que pensa que o reino a aceitará, que pensa que pode enfrentar essa gente... – acusou, e nos olhos brilhava-lhe o medo que do seu íntimo a perseguia. – Se a ama, se a ama de verdade, como dizem, esqueça que ela existe! A única paz de que precisamos é a do nosso refúgio! Não julgue que conseguirá derrotá-los! O ódio não se derrota com a espada!... Pense no que me aconteceu, no que aconteceu ao Reid... Não queira levar daqui a nossa Hildegaard porque vai colocá-la em perigo, e a si também, aos dois!...
Por um momento, Eric pesou as palavras antes de as deixar escapar da língua. Não, tola, eu a minha prima somos feitos de um metal mais forte, temperado noutra fornalha. Não somos como tu e esse outro tolo, tão cegos de amor que essa cegueira vos destruiu! Eric pensou, mas não disse. Fingiu-se interessado na caneca da bebida quente que lhe tinha sido oferecida e levou-a aos lábios. Já estava fria, e bebeu-a de um só trago como se fosse aguardente. Como teria preferido que fosse aguardente! O que a mulher dizia não era tolice nenhuma. Sim, o reino tinha mudado, mas as pessoas não. Ainda não, não havia tempo suficiente. Tempo era tudo o que Eric precisava, mas esgotava-se.
– Compreendo-te, e compreendo os teus receios. – admitiu, e deixou que a altivez lhe tornasse o semblante em pedra. – Não penses que não conheço a minha gente, e que não conheço a Igreja. Conheço-a, vivi dentro dela. E a Igreja conhece-me, e não me quer por inimigo. Seria errado subestimar-me, Melissen. Tu, melhor do que ninguém, devias sabê-lo! Muitos me subestimaram antes.
Atingida , Melissen chegou-se para trás e baixou os olhos. Do que ele acusava, era culpada também. Quando todos julgavam que aquele príncipe enfermo não sobreviveria, também não tinha sido ela a velar-lhe o berço. Também ela o tinha abandonado, àquele menino enfermo, atarefada que andava a amar e ser feliz. Mas Eric não esquecia, nem perdoava, e era verdade o que diziam dele. O homem que ali estava, o homem que tinha vindo visitar a sua prima para o Solstício, não era o soberano implacável que conquistara para si um império. Tinha-o deixado para trás, antes de entrar, como um disfarce que se podia vestir e despir. Melissen tê-lo-ia temido, se não fosse a mão de Hildegaard que o trazia. Hildegaard tinha o dom, e nenhum disfarce iludia o dom.




Continua...